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Crise de água à espera do novo presidente

Por Claudia Safatle

Uma crise hídrica sem precedentes na região Sudeste vai exigir do governo federal uma ação de emergência. À presidente Dilma Rousseff, reeleita ou não no domingo, cabe conduzir soluções de urgência para a escassez de água em Minas Gerais, Rio de Janeiro e, sobretudo, em São Paulo, onde a situação é gravíssima. Não será possível esperar a posse de um novo governo em janeiro.

A sugestão de assessores do PT é que a presidente convoque os governadores dos três Estados, na semana que vem, para definir medidas de redução do consumo de água e de energia e decidir sobre investimentos imediatos. Seria, também, uma oportunidade de Dilma demonstrar que “mudou”, como ela tem assegurado a pessoas próximas.

Se Aécio Neves, candidato pelo PSDB, for vitorioso no domingo, a discussão sobre a falta de água na parte mais próspera do país terá que ser parte de um governo de transição que hoje ninguém sabe dizer se haverá e como.

Dilma ou Aécio receberão uma herança macabra

Sob críticas de ter levado a economia brasileira à recessão, de ter descuidado da inflação, atrasado os investimentos com a demora das concessões e dona de um temperamento irascível, Dilma tem tentado convencer pessoas mais próximas de que vai mudar seu estilo de governar. A uns poucos interlocutores com quem esteve em Campinas, no mês passado, ela teria dito: “Eu entendi e vou mudar”, segundo relato de fontes oficiais.

Diante das adversidades e do risco real de perder a reeleição, ela teria concordado, nessa conversa, que precisa ser mais afável, menos voluntarista, e reconhecido que ficou sozinha, que tem menos amigos do que supunha e mais inimigos do que imaginava, que errou na definição das regras originais das concessões e exerceu excessiva intervenção, dentre outros equívocos. “Com a experiência de hoje ela jamais colocaria um sindicalista em uma agência reguladora,” assegurou uma fonte.

Temendo a derrota nas urnas, na semana passada Dilma pediu ajuda a Lula e deu sinais de que acataria sugestões do ex-presidente na condução da política econômica, concessão que não fez quando o ex-presidente tentou emplacar Henrique Meirelles no seu governo, em meados de 2013.

Na segunda feira, vitoriosa ou não, Dilma volta ao trabalho no Palácio do Planalto, onde não pisa há dois meses. A proposta da reunião com os governadores eleitos dos três Estados mais atingidos pela escassez de chuva, de partidos distintos (PT, PSDB e PMDB), tem duplo caráter: começar a agir diante da dramática de falta de água; e tentar reunir os cacos da fratura provocada por uma campanha eleitoral de baixo nível que visou dividir o país.

O mesmo senso de urgência, porém, não deve ser esperado na comunicação com os mercados, caso Dilma conquiste a reeleição. Segundo fontes oficiais, ela não pretende “se dobrar às pressões do mercado financeiro”, ávido por informações sobre o futuro da economia. Perguntas como quem será o seu ministro da Fazenda, quem vai comandar o Banco Central e sob que condições e que rumo vai dar à política econômica não devem ter respostas claras e imediatas.

Mas ela pode acatar uma outra sugestão de assessores do PT, para que marque uma reunião com vários economistas e convide Antônio Palocci e Henrique Meirelles para o encontro. A ideia seria transmitir a mensagem de que Dilma quer ampliar a interlocução nessa área e está disposta a ouvir mais. Uma terceira sugestão, feita por outros assessores, é que a presidente, antes de mais nada, tire uns dias de descanso e vencer ou se perder as eleições.

O mercado, que começou a colocar nos preços dos ativos a eventualidade de Dilma Rousseff ter um segundo mandato está, há alguns dias, em forte deterioração.

O cenário esperado para

segunda feira é binário e de consequências díspares. Se Aécio vencer, haverá comemoração e uma melhora imediata das expectativas. Se a vitoriosa for Dilma, o receio é de que se acentue o estresse e a reação pode desandar para um “circuit-breaker” na bolsa de valores, com interrupção dos negócios a partir de uma determinada baixa, além de mais desvalorização do câmbio e aumento dos juros futuros.

Quanto mais os preços dos juros e do câmbio piorarem, mais difícil ficará para o governo se reencontrar com a estabilidade. Quanto pior o mercado de ações, menor o espaço para as empresas captarem recursos para investimentos. Analistas do mercado avaliam, porém, que os movimentos, a partir de segunda feira, não serão simétricos. A alta na bolsa, por exemplo, será mais intensa se Aécio vencer as eleições do que será a baixa nas cotações se Dilma tiver mais quatro anos de governo, até porque os preços já pioraram bastante nos últimos dias.

Além de uma crise hídrica e de uma crise energética, o novo governo partirá de um patamar ruim e de uma realidade muito diferente da que Dilma recebeu no seu primeiro mandato. Apesar de evitar essa comparação no curso da campanha e de preferir embaralhar o seu desempenho com os oito anos de Lula, a presidente entrega um país pior.

Em 2010 a economia cresceu 7,5%, a inflação foi de 5,91%, o superávit primário das contas públicas encerrou o ano em 2,7% do PIB, a taxa básica de juros era de 10,75% ao ano, os investimentos expandiam e a indústria cresceu, naquele ano, nada menos do que 10%.

Hoje o país está parado. O crescimento é próximo de zero, a inflação ora está no teto de 6,5% e ora está acima dele, a taxa Selic é de 11% ao ano com tendência de alta, o superávit primário limpo também é próximo a zero, os investimentos caíram, a indústria está em recessão, a perspectiva de um “downgrade” das agências de rating é real e a credibilidade do governo é baixa. O Tesouro Nacional segurou a sete chaves os dados das contas públicas de setembro para anunciar mais um déficit só na semana que vem. O estrago fiscal foi grande.

Diante de tamanha deterioração da economia, o desafio pode ser assim sintetizado: o novo governo terá que recuperar o crescimento, reduzir a inflação, aumentar o superávit primário, deixar o câmbio mais solto e reajustar os preços defasados.

Dilma está deixando para si mesma ou para Aécio Neves uma herança macabra.

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras

Fonte: http://www.intelog.net/

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