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Escassez de água não é só no Brasil e precisa inspirar agenda internacional

Brasília está completando hoje a primeira semana de sua história com racionamento de água no Plano Piloto. Cumpre-se a profecia dos hidrólogos que há anos vêm denunciando o risco de um colapso no abastecimento da capital federal.

Falta de chuva e um gigantesco desperdício estão por trás da medida, que está longe de ser um fato isolado. A estiagem que desidrata importantes reservatórios do país (especialmente no Nordeste) levou a Aneel a determinar dias atrás o religamento das usinas térmicas –mais caras e poluentes–, e isso vai pesar na sua próxima conta de luz.

Não faz muito tempo, São Paulo registrou dois verões seguidos sem chuva, o sistema Cantareira secou, e, sem dispor de um plano “B”, a cidade mais rica e populosa do Brasil foi obrigada a experimentar o gosto do volume morto.

A mudança do ciclo da chuva também surpreendeu a maior floresta úmida do planeta. A Amazônia enfrentou em 2005 o que foi chamado na época de “a seca do século”. Especialistas afirmavam que estiagens severas como aquela costumavam acontecer em intervalos de aproximadamente 100 anos. Pois bastaram apenas cinco anos para que a floresta registrasse uma seca ainda pior, em 2010, com impactos sobre a população e o bioma.

É preciso ligar os pontos e prestar atenção aos sinais. O país que detém o maior estoque de água doce do mundo (12%) transformou seus rios em valões fétidos de esgoto (a agenda do saneamento segue ralentando), aprovou um Código Florestal que enfraqueceu a resiliência das bacias hidrográficas, permitiu a destruição da bacia do rio Doce (maior desastre ambiental do Brasil) com licenciamento frouxo e fiscalização ineficiente.

Também está prestes a autorizar a exploração da maior mina de ouro a céu aberto do país no Pará, a apenas 11 km de distância da hidrelétrica de Belo Monte (ambos os empreendimentos impactam diretamente a bacia do rio Xingu), entre outras ações ou inações polêmicas e perturbadoras.

No livro “Colapso: Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso”, o geógrafo americano Jared Diamond revela que civilizações do passado desapareceram do mapa a partir do momento em que deixaram de ser sustentáveis. Um traço comum a essas civilizações foi a falta d’água. A escassez não é problema só do Brasil e precisa inspirar uma agenda internacional. Repetir erros do passado não é sinal de inteligência.

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André Trigueiro

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