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Biomonitoramento auxilia no controle de contaminantes químicos

“Uma forma de cuidar do ambiente e da própria saúde é buscar o simples. Fazer o que é mais simples possível. Controle o que você traz para a sua casa. Controle o que você come, o que você bebe, o que você usa. Não consuma congelados, pré-cozidos e pré-prontos. Eu não bebo água em recipientes plásticos, por exemplo. Plásticos não são coisas simples. Incentive o uso de aplicativos que permitam ver quando um produto é transgênico. Pressione os fabricantes para que pensem sobre o que estão fazendo”. As recomendações do diretor do Departamento de Higiene Ambiental da Agência Federal do Meio Ambiente da Alemanha, Andreas Gies, foram dadas em sua palestra Biomonitoramento Humano: Como Podemos Usar nossos Corpos para Monitorar a Exposição Química, realizada no dia 21 de novembro no IEA.

O biomonitoramento humano vem sendo utilizado pela agência ambiental alemã para controlar de forma independente a exposição humana a contaminantes químicos. A ferramenta permite avaliar os níveis de exposição à poluição em grupos populacionais ou indivíduos.

Desde 1985, a Alemanha realiza estudos transversais de biomonitoramento em humanos e analisa espécies animais e vegetais, além de compartimentos terrestres como a água, o solo e o ar. O foco do debate foram dois programas de biomonitoramento aplicados em diversas regiões alemãs: o Environmental Specimen Bank (Banco de Espécimes Ambientais) e o German Environmental Survey (Estudo Alemão de Saúde Ambiental GerES).

O Environmental Specimen Bank é um arquivo de amostras de sangue e urina coletadas anualmente de 500 estudantes universitários de diversas partes do país, desde 1985. As amostras são armazenadas a 150°C negativos, em nitrogênio líquido. O estudo possui uma abordagem integrada, já que armazena também amostras de diversas espécies animais e vegetais, como algas, musgos, peixes, plantas diversas, aves, minhocas e outras, que também são mantidas em tanques de nitrogênio líquido. Atualmente o arquivo conta com 250 mil amostras de indivíduos humanos e do ambiente, disse Gies.

A pesquisa não é representativa da população, disse Gies, pois envolve uma amostra pequena de um universo de jovens entre 20 anos e 30 anos de idade. “Mas tem sido um excelente instrumento para evidenciar mudanças de hábitos e a evolução da poluição do ar ao longo do tempo”, afirmou o diretor.

Entre as substâncias analisadas estão o cálcio, cobre, mercúrio, chumbo, ftalatos (plásticos), compostos de flúor e outros. As análises desse arquivo evidenciaram o aumento de 10% da massa corporal dos jovens, desde 1985. Essa faixa populacional também está ingerindo mais líquidos e, consequentemente, produzindo meio litro de urina a mais por dia. “É moda as pessoas correrem com uma garrafa de água na mão. Estão ingerindo mais líquidos”, disse.

Já o German Environmental Survey, que está entrando na sua sexta fase, é realizado a cada 6 anos como um estudo transversal de indivíduos de cidades representativas demograficamente. Coleta amostras de crianças de três a 17 anos de idade, envolvendo 2.500 famílias. É feito em conjunto com as agências de saúde da Alemanha e capta dados sobre o consumo de alimentos, condições físicas e psicológicas dos indivíduos.

“A metodologia permite obter um quadro quase completo das condições físicas e psicológicas da criança, além da presença de metais pesados, plásticos e outras substâncias no organismo”, disse.

Em muitas amostras desse estudo tem aparecido a presença de nicotina metabolizada na urina, indicando que o fumo ainda é uma fonte de contaminação para crianças. “Isso ainda tem ocorrido, mesmo que o hábito de fumar esteja cada vez menos popular na Alemanha”, disse.

O diretor chamou a atenção para o volume de DHPs, ou ftalatos, presentes nas amostras. Trata-se de elementos que servem para dar maleabilidade ou textura e cor em plásticos e certos alimentos. A presença dos “velhos” tipos de ftalatos produzidos na década de 1990 caiu expressivamente em 2000. Mas a nova geração de ftalatos – “que as indústrias dizem ser menos potentes”, disse – vem aparecendo e após alguns anos de exposição eles podem se tornar tão potentes quanto a geração anterior de DHPs, afirmou.

Segundo Gies, o contato e o consumo de produtos com DHP aumentou tanto que 85% das crianças alemãs entre 3 anos e 14 anos de idade apresentam índices acima dos níveis tolerados para a substância, mostrou.

Gies lembra que a Alemanha não tem escassez de água – sendo também considerada uma das mais puras do planeta. Mas há problemas com os elementos químicos liberados nos encanamentos que chegam nas casas. “A primeira água da manhã, que as pessoas usam para fazer o café ou chá, é a que ficou por mais tempo parada nos canos e a que libera maiores quantidades de cobre e chumbo”, disse.

O diretor explica que os bancos de dados de biomonitoramento ajudam a identificar as vias de exposição a contaminantes; a desenvolver estratégias para prevenir ou reduzir a exposição a contaminantes; a avaliar o sucesso da regulamentação existente; a tomar decisões informadas em medicina ambiental; a reduzir os riscos através de informações;a fornecer contribuição para melhorar a política da área; e a identificar novas substâncias químicas lançadas no mercado.

Além desses programas, a agência ambiental alemã mantém um trabalho de biomonitoramento feito em parceria com 40 países europeus e 108 parceiros. Trata-se do HBM4EU, que mobiliza um financiamento total de 74 milhões de euros (aproximadamente R$ 270 milhões), disse o especialista.

Desde 2004, a instituição dirigida por Gies mantém uma parceria com a Universidade de Salvador (BA) para o biomonitoramento na Baía de Todos os Santos, onde existe uma descarga em grande escala de esgotos industriais e domésticos. A taxa de recuperação está em 50% e envolverá também o tratamento de sete rios da região, afirmou.

O debate teve a moderação do professor Marcos Buckeridge, presidente da Academia Brasileira de Ciências e coordenador do Programa USP Cidades Globais, que apoiou o encontro ao lado do Grupo de Pesquisa Meio Ambiente e Sociedade do IEA.

Comunicação é estratégia para mudança de hábitos
Gies ressaltou que uma estratégia importante do governo de seu país tem sido sensibilizar a opinião pública para provocar mudanças em leis, nas práticas de mercado e nos hábitos de consumo.

“Pesquisa é importante, mas mostrar dados não sensibiliza a população. Há muitas dificuldades na relação entre agências do governo e empresas. Então a comunicação tem sido uma ferramenta estratégica para sensibilizar a opinião pública a respeito de determinadas substâncias”, disse.

Para Gies, a comunicação foi um sucesso, por exemplo, no caso do chumbo. Em 2000, o uso do chumbo na gasolina sofreu uma redução surpreendente muito antes das restrições legais. A simples comunicação do fato já provocou a redução do uso por parte dos fabricantes porque a população decidiu não comprar mais os produtos contaminantes, afirmou.

Aproximadamente 100 mil tipos de substancias químicas estão registradas na Comunidade Europeia e nos Estados Unidos, sendo que entre 40 mil e 50 mil são comercializadas mundialmente em grandes quantidades, ou acima de uma tonelada, mostrou Gies. “Chamamos a essas substâncias de ambientalmente relevantes, já que têm grande probabilidade de aparecerem no ambiente ou em nossos corpos, onde permenecem por muito tempo”, disse.

Em 1930, um milhão de toneladas de químicos era comercializada no mundo. Em 2001, esse volume saltou para 400 milhões de toneladas. Devido ao volume e à variedade das substâncias químicas produzidas pela indústria, não é possível às agências governamentais controlar a segurança ou monitorar de forma integrada todos os tipos de usos.

Uma saída para o problema foi a autoridade ambiental da União Européia transferir a responsabilidade para os produtores. “São os fabricantes que têm de garantir se o produto é seguro. Devem fazer a avaliação de risco, produzir dados de exposição, de contaminação e efeitos e fazem isso principalmente com experimentos animais”, disse o especialista.

Sendo assim, apenas 10% das declarações de avaliações de risco feitas pelas indústrias são acompanhadas cuidadosamente pela agência ambiental européia, disse Gies. “Não é possível monitorar de forma integrada todos os tipos de exposição. Uma substância pode ser usada em comésticos ou pesticidas, na própria industria ou mesmo sob legislações diferentes. Então precisamos de um instrumento capaz de integrar os diferentes olhares sobre avaliação de risco e cuidar das falhas no entendimento a respeito dessas avaliações”, disse.

Uma substância utilizada em cascos de navios havia sido proibida na Alemanha e foi posteriormente descoberto que era utilizada para fabricação de tecidos esportivos. “Então a legislação alemã sobre controle de químicos integrou conceitos para o biomonitoramento humano e do ambiente. Integra todos os tipos de exposição e contaminação, seja por via oral, nasal ou pela pele, abrangendo todos os usos dessas substâncias”, disse.

Glifosato
Segundo Gies, o glifosato é vendido desde 1974. No mundo, cerca de 720 mil toneladas de produtos contendo glifosato foram comercializadas em 2012, perfazendo uma soma de US$ 5,5 bilhões nas vendas do produto naquele ano. Esse volume, que é maior que a soma de todos os outros herbicidas juntos, poderá atingir o dobro em 2017.

A substância é usada em 80% dos cultivos transgênicos e também em culturas tradicionais. Pode ser encontrado, por exemplo, no milho, no algodão, na soja e na cana transgênica. “Foi um avanço o fato de a Organização Mundial da Saúde ter anunciado há dois anos ser provável que o glifosato esteja causando câncer em humanos. Isso impactou muito nas avaliações de risco para o produto e indicam que a comunicação faz a diferença”, disse.

No estudo com os estudantes alemães, o cenário da presença de glifosato nas amostras é totalmente diferente nos anos de 1996 e 2012, com esse último mostrando grandes concentrações de glifosato em humanos e em determinados espécimes. “Estão acima do limite é óbvio que isso está aumentando. Mais da metade dos espécimes do ambiente apresentaram concentrações acima do aceitável”, observou Gies.

“O setor químico é mais dinâmico que qualquer outro da economia em termos de PIB global. Além disso, 7% do PIB global depende dessa indústria e essa parcela é ainda maior na Alemanha, que tradicionalmente é forte nesse setor. Então se tentarmos controlar a indústria química, irão bater na nossa porta. Temos que conviver com esse conflito e estarmos alertas para o problema”, disse Gies.

A farmacêutica e química Monsanto, líder mundial na engenharia genética de sementes e na comercialização de herbicidas como o glifosato, foi recentemente adquirida pela alemã Bayer pela cifra de U$ 66 bilhões. A ironia é que naquele país é proibido o cultivo de transgênicos. “Na Alemanhã e em alguns países da Europa não se cultivam transgênicos. Mas o glifosato ainda é muito utilizado no mundo inteiro”, disse Gies.

Entre 2009 e 2013, os estados brasileiros do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul contabilizaram 88 mortes por “exposição aguda aos ingredientes dos agrotóxicos”, incluindo o glifosato, segundo relatório dos Centros de Informações e Assistência Toxicológica desses estados.

Fonte: Instituto de Estudos Avançados | USP

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