Deputados pedem auditoria em projeto de recuperação do Rio Doce

A Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados analisa requerimento a ser encaminhado ao Tribunal de Contas da União (TCU), para que faça auditoria financeira, orçamentária e operacional sobre as atividades de recuperação da qualidade da água do Rio Doce, a cargo da Fundação Renova – criada para lidar com o passivo ambiental deixado pela tragédia da Mineradora Samarco. O pedido tem por base estudo realizado pela comissão, relativo aos impactos do rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, na Região Central de Minas, que, além de poluir toda a Bacia do Rio Doce, devastou o distrito de Bento Rodrigues, deixando centenas de desabrigados e matando 19 pessoas.

A proposta de auditoria do TCU, do deputado Padre João (PT/MG), foi encaminhada ao presidente da comissão na sexta-feira, quando foi divulgada a versão final do relatório de estudos dos técnicos da Câmara sobre o desastre. O documento apontou violações dos direitos das populações atingidas pelo rompimento da barragem. O parlamentar que assinou o relatório destacou que o documento é mais uma prova evidente da responsabilidade da empresa na restrição do acesso à água por comunidades. “O relatório denuncia de forma clara e contundente as inúmeras violações de direitos humanos dos atingidos que vivem em municípios no entorno do Rio Doce”, assinalou Padre João.

Entre as violações relatadas estão recusa de cadastramento de pessoas atingidas pelo desastre para recebimento de benefícios, impactos sobre a saúde das populações, discriminação contra a mulher, prejuízo no abastecimento de água potável, desemprego das comunidades, indenização insuficiente às famílias afetadas e a construção do Dique S4, que deve cobrir parte do vilarejo de Bento Rodrigues, que foi completamente destruído pela tragédia socioambiental.

O desastre resultou no ajuizamento de diversas demandas judiciais. Por ocasião do julgamento do Conflito de Competência 144.922/MG, a Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça definiu como competente para avaliá-las a 12ª Vara Federal de Belo Horizonte. Em 2 de março de 2016, a União e os estados de Minas Gerais e do Espírito Santo, além de autarquias estaduais e federais, celebraram com a Samarco e suas controladoras, Vale e BHP Billiton, o Termo de Transação e Ajustamento de Conduta, visando a atender as demandas judiciais, com a criação do Comitê Interfederativo (CIF) para a reparação dos danos socioambientais e socioeconômicos.

Para o deputado, o comitê foi criado sem previsão legal, com risco de supressão de controle externo das ações do Poder Executivo para a reparação dos danos causados pelo desastre. Daí a justificativa para o pedido de auditoria do TCU, com o objetivo de avaliar a atuação do Ibama, da Agência Nacional de Águas (ANA), do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), além do Comitê Interfederativo (CIF) que, por meio da Fundação Renova, coordena as ações de reparação da Bacia do Rio Doce.

Com a finalização do relatório, as denúncias apuradas pelos integrantes da comissão parlamentar serão encaminhadas ao Ministério Público em níveis federal e estadual, ao Comitê Interfederativo, à Defensoria Pública da União e aos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo. O grupo informa que vai acompanhar o processo de reparação e estará atento a eventuais novas violações dos direitos dos atingidos.

SAMARCO Em nota, a Samarco informou que não foi notificada sobre o relatório da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. A empresa ressaltou que respeita o patrimônio memorial de Bento Rodrigues e que o dique S4 foi construído com o cuidado de preservar as ruínas e edificações remanescentes, como a Capela de São Bento e o cemitério. “A estrutura, implantada em área já impactada, faz parte do sistema de contenção de sedimentos e tem o objetivo de evitar o carreamento de sólidos da área de Bento Rodrigues para o Rio Gualaxo. A Samarco ressalta que o S4 tem caráter temporário”, destaca o comunicado.

Já a Fundação Renova, que se define como instituição autônoma e independente constituída para reparar os danos causados pelo rompimento da barragem, informou por meio de nota que a qualidade da água é monitorada em 120 pontos ao longo da Bacia do Rio Doce e região costeira próxima à foz, em laboratórios certificados pelo Inmetro. Acrescentou que o programa de indenização mediada para reparar os danos decorrentes da interrupção no abastecimento de água potável já atendeu a mais de 66 mil pessoas em Governador Valadares e Colatina (ES), e milhares de pagamentos já foram creditados. “A Fundação Renova vem desenvolvendo inúmeras ações para garantir a oferta de serviços de saúde à população impactada, promovendo assistência plena à demanda local, incluindo entrega de unidade básica de saúde, capacitação e contratação de equipes médicas”, diz o texto.

Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A.Pres
Fonte: Jornal Estado de Minas

Últimas Notícias:
Especialistas debatem relevância crescente de contabilidade para o saneamento no ENCONSAB (3)

Especialistas debatem relevância crescente de contabilidade para o saneamento no ENCONSAB

O 3º Encontro Nacional de Contadores do Setor de Saneamento (ENCONSAB), realizado na quarta (19/8) e quinta-feira (20/8), em São Paulo. Reuniu 313 representantes de órgãos reguladores, empresas, entidades de classe e especialistas para discutir os desafios da contabilidade diante das transformações do setor. Ao longo da programação, temas como Reforma Tributária, contabilidade regulatória, novas normas internacionais, Inteligência Artificial e auditoria independente mobilizaram os debates.

Leia mais »
Recompensa para denúncia de descarte irregular de lixo já pode ir a Plenário

Recompensa para denúncia de descarte irregular de lixo já pode ir a Plenário

Em reunião nesta quarta-feira (19/08), a Comissão de Administração Pública e Segurança Pública emitiu parecer favorável ao Projeto de Lei (PL) 791/2026, de autoria de Professora Marli (PP), que institui o Programa de Fiscalização Colaborativa, com a finalidade de prevenir e combater o descarte irregular de resíduos sólidos em espaços públicos de BH. O texto prevê canais oficiais para o recebimento de denúncias e garante a preservação da identidade do denunciante. Nos casos comprovados, o denunciante poderá receber uma bonificação de até 30% do valor da multa paga pelo infrator.

Leia mais »