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Florestas para movimentar a economia

Por Miguel Calmon

O papel que as florestas exercem para o meio ambiente e bem-estar humano já é bem conhecido pela ciência. Elas revitalizam o solo, protegem nascentes e corpos d’água cruciais para o abastecimento humano, e retiram carbono e poluição de atmosfera, entre os muitos benefícios. A importância é tamanha que o próprio Estado brasileiro se comprometeu a não apenas reduzir o desmatamento, como também restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas até 2030.

Apesar disso, o Brasil ainda enfrenta dificuldades em conservar e reflorestar. Um dos principais gargalos é justamente o do financiamento. A restauração florestal custa dinheiro. Com o país enfrentando uma severa crise econômica, com riscos de recessão, por que colocar recursos no plantio de árvores ? Produtores rurais, empresários e iniciativas em todo o mundo mostram que essa contradição não existe mais. É possível plantar florestas nativas e sistema agroflorestais e, a partir delas, movimentar a economia, gerando renda para o produtor rural e, consequentemente, aumentar o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

Temos um grande potencial de aumentar a participação da economia da floresta em sua economia. Vejamos, por exemplo, o caso da Finlândia. No país, a cadeia de florestas produtivas responde por um quarto do PIB. Enquanto isso, no Brasil, o setor florestal corresponde a apenas 1%, puxado principalmente pelo setor de celulose. Temos claramente uma oportunidade econômica a ser aproveitada com nossas espécies nativas. O primeiro passo para impulsionar nossa economia florestal está em dar atenção para a imensa quantidade de áreas degradadas em todo o país. Segundo a Embrapa, o Brasil tem pelo menos 30 milhões de hectares de pastagens desgastadas com baixa aptidão agrícola que poderiam ser convertidos em florestas. Ao todo, estima-se que 140 milhões de hectares já não ofereçam condições de uso econômico, seja por degradação ou erosão. É como se o Brasil jogasse fora uma área superior a todo o território do Peru. É a mesma falta de juízo econômico de abrir uma nova indústria do zero quando já se tem fábricas prontas, mas cujas máquinas apresentam problemas de produtividade.

Foto : https://www.fatoamazonico.com/

Restauração ambiental

Como podemos transformar áreas degradadas em territórios produtivos, com espécies nativas tropicais de valor econômico e sistemas agroflorestais, e alavancar uma nova economia florestal? Em várias regiões do Brasil, produtores estão tentando diferentes modelos de restauração florestal que protegem o meio ambiente e geram renda. Já há exemplos que mostram que são modelos robustos e com grande potencial de geração de renda. Veja o caso da AgroItuberá, empresa do setor de borracha, do Sul da Bahia. Ela optou por um sistema agroflorestal – uma forma de plantio que integra lavoura com florestas. A companhia passou a misturar as seringueiras com o cultivo de cacau e banana. Esse sistema agroflorestal simplesmente triplicou a produtividade em relação ao que se obtém hoje na Costa do Marfim, líder mundial na produção de cacau. Lá colhe-se 0,5 tonelada por hectare. À sombra das seringueiras, os pés de cacau produzem 1,5 tonelada de cacau por hectare. Na ponta do lápis, isso representa uma taxa interna de retorno entre 14% e mais de 20%. Um excelente investimento, um ótimo negócio.

A restauração de florestas e sua integração com agricultura e pecuária geram uma produção diversificada e, portanto, menos exposta à volatilidade dos preços e aos riscos das pragas e doenças que oneram o custo das lavouras e causam perdas. Combinar florestas com a produção de alimentos, integrando espécies com distintos tempos de maturação, gera renda ao produtor no curto e médio prazo, com a venda das culturas anuais e sub-produtos das florestas, e no longo prazo, com madeiras nobres de crescimento mais lento. Em Santa Catarina, pequenos produtores estão experimentando esse sistema restaurando áreas degradadas com araucárias, erva-mate e palmito-juçara – espécies nativas que, por isso, podem inclusive ser cultivadas em áreas de Reserva Legal e áreas de uso alternativo, aliando lucratividade com a regularização no Código Florestal. Os produtos da restauração florestal e florestas podem criar um grande mercado de artigos madeireiros e não madeireiros, como sementes, fibras, frutas, óleos, borracha. Mesmo a madeira de origem legal e certificada pode ser produzida para essa economia.

Não faltam exemplos de destaque. No Sul da Bahia, a Symbiosis investe em 22 espécies diferentes de árvores nativas da Mata Atlântica para a produção de madeira. No Pará, a Amata apostou no paricá, árvore nativa da Amazônia, para geração de madeira certificada. Mesmo em biomas não-florestais, como o Cerrado, existem elementos de grande apelo comercial, como o óleo de macaúba (palmeira nativa) como uma alternativa para o dendê. Esses exemplos podem ser o ponto de partida para identificar sistemas escaláveis, de boa liquidez, equacionando gargalos e capitalizando oportunidades. Tendo boa parte de nossos principais biomas constituídos originalmente por florestas, deixar de aproveitar o potencial das espécies nativas é desperdiçar uma enorme oportunidade de crescimento. Mais de 30% dos solos do mundo estão degradados, segundo a FAO. Em um mundo que abrigará 10 bilhões de seres humanos, em pouco mais de três décadas, não podemos abrir mão dessas terras. Uma nova economia florestal baseada em reflorestamento com espécies nativas e sistemas agroflorestais pode ser o primeiro passo para colocar o Brasil na vanguarda desse novo modelo de produção de alimentos – e para nos tirar da linha de frente das nações que mais perdem cobertura florestal tropical no mundo. O caminho já começou a ser plantado : basta escolher a semente certa para colher crescimento econômico com sustentabilidade.

Miguel Calmon

Diretor do Programa de Florestas do WRI Brasil e doutor em Ciências do Solo pela Universidade Estadual da Pensilvânia (EUA).

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