Dois dos três lotes ofertados ficaram sem oferta; problemas na modelagem afastaram grandes investidores.
O leilão de Parcerias Público-Privadas (PPPs) da Saneago (estatal de saneamento de Goiás) atraiu o interesse de apenas um grupo, o Consórcio Águas do Cerrado, que entregou proposta para somente um dos três lotes da licitação, apurou o Valor. Com isso, dois blocos ficaram sem oferta e terão que ser revistos.
O proponente é formado pela Quebec Ambiental – empresa de saneamento já presente no Estado, principalmente em resíduos sólidos -, a Bento Upside e a Sistemma. O bloco que recebeu proposta foi o da microrregião Oeste, com previsão de R$ 1,3 bilhão de investimentos.
A entrega de propostas foi realizada na quarta-feira (17), e a sessão pública da concorrência deverá ser realizada na próxima quarta (25), n sede da B3, em São Paulo.
Companhias de maior porte que vinham analisando o projeto, como Aegea, BRK Ambiental, Acciona, entre outros, acabaram optando por fi de fora. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, investidores de maior porte decidiram de última hora não entrar por observar problemas n estruturação e não enxergar um retorno adequado no contrato.
Entre os fatores de insegurança apontados estão incertezas tributárias, um subdimensionamento do valor das obras, assim como do monta projetado para os custos operacionais.
Uma fonte do setor observou que os valores estimados para o “capex” (investimento em bens de capital) do projeto ficaram muito abaixo do patamar usado em estudos recentes de outras concessões de saneamento. Na visão de outro ator que acompanhou o processo, os cálculo de “opex” (gastos operacionais) ficaram ainda mais apertados nas projeções da Saneago, e mesmo nos cenários mais otimistas não haveri retorno no contrato.
Há uma avaliação de que o valor da contraprestação (pagamento da estatal à concessionária ao longo do contrato) ficou abaixo do necessá Além disso, fontes apontaram que as metas de atendimento do serviço previstas no edital eram desproporcionalmente rígidas e que a taxa retorno interna do projeto ficou baixa para o tamanho dos riscos apontados.
Certame da Saneago atrai apenas um grupo
Procurado, o governo de Goiás não se manifestou após a entrega das propostas do leilão.
A princípio, foram ofertados ao mercado três lotes, com cerca de R$ 6 bilhões de investimentos previstos, em 216 municípios. Os blocos era os das microrregiões Leste, Oeste e Centro.
O lote Oeste, único a receber oferta, inclui 77 cidades. Além do R$ 1,3 bilhão previsto em obras, os municípios também deverão receber em torno de R$ 702 milhões em gastos para manter a operação ao longo dos 20 anos da concessão – segundo as estimativas dos estudos. No leilão, o critério da disputa, caso houvesse mais de uma proposta, seria o maior desconto sobre os valores que serão pagos pela Saneago à concessionárias.
Uma pessoa próxima ao projeto afirma que o governo deverá buscar os grupos que participaram das rodadas de conversas para entender os principais pontos que afastaram o interesse. Além disso, o governo espera licitar, ainda neste ano, os dois blocos que não receberam ofertas.
Na avaliação da fonte, a equipe tem ferramentas para fazer os ajustes necessários em relação aos valores de investimentos e da remuneração. Com o ajuste desses números, há uma perspectiva de que os grupos que estudaram os lotes possam decidir entrar entrar na disputa, avalia uma pessoa que acompanha o tema.
Antes mesmo da entrega de envelopes, o leilão da Saneago vinha enfrentando questionamentos administrativos, com tentativas de impugnação do edital, e ações judiciais.
A Aegea, uma das interessadas, entrou com dois pedidos de liminar contra o edital. A primeira ação do grupo criticava a cláusula de barreira prevista no projeto, para evitar que um mesmo grupo levasse as três PPPs.
Esse mecanismo busca estimular a diversificação de operadores no Estado e o governo já o adotou em outros projetos. No entanto, a companhia já vinha criticando a medida. Em 2024, a empresa chegou a conseguir a suspensão de um leilão da Sanepar, no Paraná, por conta dessa cláusula. Ainda assim, ao final, a Justiça considerou válida a restrição e realizou a licitação com a norma. A regra prevê que uma mesma empresa só poderia ficar com mais de um contrato caso não haja propostas de outros interessados.
Marco do saneamento. Saneamento básico no Brasil. Universalização do saneamento. Ranking do saneamento 2026. Instituto Trata Brasil. Acesso à água potável. Coleta de esgoto. Tratamento de esgoto. Redução de perdas de água. Ampliação de investimentos em saneamento. Redução das desigualdades regionais. Impacto do saneamento na saúde pública.
A própria Aegea também entrou com uma segunda ação judicial contra o leilão. Dessa vez, a empresa criticou a modelagem econômico-financeira do projeto. Além disso, apontou fatores que indicariam sua inexequibilidade. O pedido, porém, não foi aceito.
Fonte: Valor
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