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Em crise, grupos da Lava-Jato já estudam venda de ativos

Aumentaram nos bastidores as preocupações sobre os efeitos da Operação Lava-Jato, que deve afetar de forma distinta os controladores de cada uma das empreiteiras investigadas. Para alguns, que estão com dificuldades para obter empréstimos, esse é o momento mais delicado da história. Para outros, a diversificação de negócios garante menor preocupação.

De forma geral, os grupos com balanço mais dependente da área de engenharia e mais alavancados sofrem mais com a desconfiança do mercado. Levantamento feito pelo Valor Data mostra que o peso do segmento de construção (que é o alvo das denúncias) na receita dos grupos envolvidos varia bastante, saindo de 87% na Galvão Engenharia para 23% na Camargo Corrêa. Alguns conglomerados já começam a preparar alternativas.

Conforme o Valor apurou, a Engevix estuda vender ativos, como a concessão de aeroportos. O grupo está hoje no controle dos terminais de Brasília e de São Gonçalo do Amarante (RN).

Essa é apenas uma das possibilidades estudadas pela companhia no momento. De imediato, há outras ações. A empresa não deve entrar nos próximos anos em contratos que exijam forte uso de capital – como rodovias ou aeroportos. Em outras palavras, adicionar novos investimentos à carteira está descartado. Apesar das dificuldades de obtenção de crédito, existentes tanto pelo cenário macroeconômico como pelos problemas da Lava-Jato, acredita-se na empresa que é possível colocar em prática um “pacote de soluções” para manter a companhia de pé.

Outro grupo citado com dificuldades nos bastidores é a OAS. O grupo tem uma estrutura de capital considerada agressiva: a alavancagem líquida (dívida sobre a geração de caixa medida pelo Ebitda) está em 9,3 vezes. A agência de classificação de risco Fitch afirma em relatório recente que a venda de algum ativo da OAS Investimentos daria fôlego aos números. O mercado vê com especial interesse a participação de aproximadamente 25% na Invepar – companhia de concessões de infraestrutura controladora do aeroporto de Guarulhos e de outros ativos.

Apesar de a OAS não ter comunicado ainda a potenciais investidores seu interesse de venda, agentes de mercado já começam a fazer estudos sobre esse e outros ativos da companhia. Em 2012, a Invepar era estimada em aproximadamente R$ 5 bilhões – conforme reportagem da época do Valor.

A OAS tem 75% do faturamento oriundo de engenharia e construção. Como a empreiteira (investigada) do grupo é responsável por garantir 70% da dívida corporativa consolidada, há no mercado preocupação sobre concessão de crédito ao grupo e a rolagem do débito é um desafio. Já uma possível declaração de inidoneidade (impedimento de contratar com o setor público por até dois anos) não traria grande impacto: pouco mais de 20% da carteira atual é relacionada ao setor público no Brasil.

A UTC, que tem 72% de sua receita proveniente da engenharia industrial, também é vista por especialistas ouvidos pelo Valor como empresa que pode enfrentar dificuldades. Ao fim de 2013, pouco mais de 60% do saldo de contas a receber era decorrente de contratos com Petrobras. A empresa tem dito, no entanto, que obras e pagamentos seguem o curso previsto.

No Grupo Galvão, 87% dos R$ 4,1 bilhões de receita líquida registrada no ano passado vieram da Galvão Engenharia e apenas 12% vêm de outra subsidiária, a empresa de saneamento CAB Ambiental. A forte dependência do grupo em relação a sua empreiteira levou a Fitch a colocar recentemente os ratings de emissão da CAB em observação negativa, devido a preocupações sobre o impacto das acusações de corrupção. Há dois meses, antes mesmo da fase de prisões de executivos por parte da Polícia Federal, a Galvão tentava vender uma fatia minoritária na CAB para a GP Investments por até R$ 300 milhões.

Na Queiroz Galvão, a engenharia responde por metade das receitas. Uma declaração de inidoneidade não teria um impacto tão forte, já que apenas 12,5% da carteira é relacionada a obras com o setor público brasileiro.

Mas mesmo empresas com peso menor do segmento de construção na receita podem sofrer consequências negativas.

Dados do Valor Data mostram que, quando se observa o resultado líquido de 2010 a 2013, a unidade de engenharia e construção foi a mais lucrativa e com resultados mais consistentes desses grupos, sendo responsável por garantir o lucro de grupos como Odebrecht, Queiroz Galvão e OAS.

Na última linha do balanço, a soma dos demais negócios apresentaram prejuízo, ainda que muitos deles por variações cambiais, sem impacto no caixa.

Um motivo apontado por algumas empresas é que a diversificação se acentuou nos últimos anos e por isso não se reflete plenamente no resultado líquido. Em 2015 e 2016, essa mudança de mix ficaria mais clara.

Outro ponto de atenção para medir o risco a que as empresas estão sujeitas é verificar o perfil de dívida de cada companhia. O grupo Odebrecht, por exemplo, tem a maior dívida bruta total, de R$ 77 bilhões ao fim de em 2013, o que chama atenção à primeira vista. Mas apenas R$ 9,7 bilhões estavam ligados à construtora (por meio de garantia), sendo majoritariamente em bonds no exterior, com prazo médio de vencimento de 33 anos, e com o próximo pagamento relevante precisando ocorrer em 2025. O grosso era com Braskem e outras controladas do grupo

A princípio, empresas de prestação de serviço de construção não precisam se endividar de forma pesada, já que são executoras de projetos. Mas muitos conglomerados usam a força do balanço dessas empresas, que são boas geradoras de caixa, para alavancar novos negócios do grupo.

A Galvão Engenharia, por exemplo, tinha uma dívida de R$ 441 milhões ao fim de 2013, mas ainda prestava garantia para um empréstimo de R$ 600 milhões da controladora e de R$ 189 milhões para uma subsidiária.

Quanto mais segregado for o risco dos negócios, menor a chance de um problema com a unidade de engenharia afetar as demais unidades. E os executivos das empresas têm investido tempo nas últimas semanas para explicar isso aos investidores e credores. (Colaborou Vinícius Pinheiro)

Operação Lava Jato

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