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RJ: Inoperante há 16 anos, estação de São Gonçalo é símbolo de desperdício

RIO – Uma placa em frente à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) São Gonçalo indica que estão sendo realizadas obras de complementação da estrutura. Inaugurada pelo ex-governador Marcello Alencar, em dezembro de 1998, a estação não trata hoje um único litro de esgoto. Relatório do Tribunal de Contas (TCE) mostra que estão sendo gastos mais R$ 122 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para fazer a estação operar e, de quebra, melhorar o abastecimento de água do município, outra dívida do PDBG.

Há ainda um longo caminho a percorrer e muitos recursos para gastar, para atingir a principal meta do PDBG: tratar 10.554 litros de esgoto por segundo. Até agora, segundo Jorge Briard, diretor de operações da Cedae, as oito estações existentes — quatro novas e as demais ampliadas — tratam 6.069 litros por segundo. Mas uma nova promessa já está feita: a Cedae quer chegar a 14.224 litros por segundo em dezembro de 2015. Para cumprir o cronograma, terá que avançar 134% em um ano, uma evolução jamais experimentada.

Responsável pelo acompanhamento das novas intervenções em São Gonçalo, a Secretaria estadual de Obras informa que a previsão é que a construtora Delta conclua as obras até maio de 2015. Otimista, o presidente da Cedae, Wagner Victer, garante que pelo menos a ETE do município será reinaugurada num prazo de até três meses.

HORTA E POUCOS FUNCIONÁRIOS

Numa visita surpresa feita pelo GLOBO à ETE São Gonçalo, no dia 6 de agosto, no entanto, nenhum operário foi visto. No terreno existe uma horta e estão estocadas tubulações para serem usadas em obras de implantação de redes de saneamento no município e em cidades vizinhas. No prédio principal, com marcas de descuido evidentes, havia apenas quatro funcionários.

Localizada à beira do trecho Niterói-Manilha da BR-101, no bairro Boa Vista, a ETE São Gonçalo tem o piscinão como vizinho. Ambos bem próximos à Praia das Pedrinhas. Os restaurantes, de frente para a praia, não têm rede de água e precisam utilizar o serviço de carros-pipa. E o esgoto cai numa tubulação, que segura os sólidos, seguindo para outra canalização e desembocando in natura no mar. Um valão, com o esgoto vindo de casas e estabelecimentos comerciais da redondeza, completa o cenário.

— Nosso esgoto vai direto para a baía. Às vezes, entope a caixa em frente ao restaurante e o esgoto transborda — conta Maria Aparecida Fontes, dona do Amarelinho da Praia há dois anos.

Enquanto as soluções do poder público para despoluir a Praia das Pedrinhas engatinha, uma placa cobra consciência aos frequentadores. “Cara chato é aquele que suja a praia. Quem ama, cuida”, incentiva.

Moradora do Porto da Pedra, Selma Cardoso, de 51 anos, vai com frequência à Praia das Pedrinhas. Nos últimos anos, porém, se limita a beber uma cervejinha e a jogar conversa fora com amigos. Ela espera voltar a tomar banho no local:

— No verão, essa praia lota e tem gente que se arrisca a tomar banho de mar. Será verdade que com as Olimpíadas isso tudo vai ficar limpo?

Para os amigos Thiago Ribeiro, de 20 anos, e Davi, de 19, moradores dos bairros Santa Catarina e Barro Vermelho, respectivamente, o mar da Praia das Pedrinhas agora só serve para dar banho em seus cavalos. Segundo os rapazes, o sal ajuda a cicatrizar as feridas dos animais.

— Evitamos o contato com a água, mas nem sempre isso é possível — diz Thiago.

Num voo sobre a Baía de Guanabara, em 11 de agosto, com o Projeto Olho Verde, coordenado pelo biólogo Mario Moscatelli, foi possível visualizar a inoperante unidade de São Gonçalo, que chegou a funcionar precariamente no passado. Na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim — último fragmento de manguezal ainda preservado na baía — o Rio Guaxindiba recebe esgoto de Itaboraí e São Gonçalo.

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— Quem quiser água limpa para mergulhar em São Gonçalo deve procurar no piscinão — ironiza o biólogo.

GASTOS DE MAIS DE R$ 400 MILHÕES EM ALEGRIA

Da Ponte Rio-Niterói, onde há estaleiros, até a divisa com São Gonçalo, o cenário é desolador: uma profusão de esgoto e embarcações abandonadas.

Do outro lado da baía, no Caju, metade da ETE Alegria continua parada. Inaugurada com pompa e circunstância em julho de 2001, foi reativada sete anos e seis meses depois, já no governo de Sérgio Cabral. Projetada para tratar 5 mil litros de esgoto por segundo há duas décadas, a unidade só trata 1.950 litros por segundo atualmente (39% do previsto).

O motivo: as obras de ligação das redes de esgoto jamais foram concluídas — uma constante em todo o programa. Importantes comunidades, como o Alemão e a Maré, ainda padecem de falta de saneamento. Apenas o tronco coletor do Centro da cidade está concluído. A finalização de todos os trabalhos em Alegria, orçada em mais R$ 400 milhões, está agendada para o ano olímpico de 2016.

Na mesma região, as máquinas da Estação Pavuna, em Vigário Geral, garantem o funcionamento de 47,3% do que havia sido projetado em 1994. A unidade foi reinaugurada em fevereiro último, depois de padecer 14 anos sem receber uma gota de esgoto. Os três grandes tanques decantadores — responsáveis pelo tratamento secundário — funcionam, mas apenas um de cada vez. Não há esgoto suficiente para justificar a operação conjunta. No início da tarde do último dia 13, biguás nadavam animadamente num aerador desativado da ETE Pavuna.

O trecho da baía junto à Zona Portuária é tomado por esgoto de ponta a ponta, principalmente em frente à Ilha da Pombeba, vizinha ao Canal do Mangue.

— Estão sendo feitos investimentos enormes na Zona Portuária, mas a baía continua uma latrina — lamenta Moscatelli.

Em Belford Roxo, nos arredores da ETE Sarapuí, às margens do rio de mesmo nome, a ocupação desordenada dá a tônica. Canais que desembocam no Sarapuí viraram valões de esgoto.

Dos 55 rios, canais e córregos que deságuam na baía, apenas cinco apresentam, segundo Moscatelli, boas condições ambientais: Suruí e Iriri (Magé); Guapimirim, Guapiaçu e Caceribu (Guapimirim).

Para o engenheiro Francisco Filardi, assessor-executivo do PDBG entre agosto de 1995 e dezembro de 1998, período em que as grandes obras foram licitadas, o programa virou uma colcha de retalhos. Em sua avaliação, o que faltou para que fosse executado adequadamente foi uma autoridade gerenciadora da baía:

— O grande erro foi a falta de um órgão de planejamento e de fiscalização da baía, que dissesse o que tinha de ser feito e servisse de interlocutor junto aos municípios, ao estado e aos organismos envolvidos. Alguém que dissesse o que tinha que ser feito e com poder de polícia para fiscalizar.

Filardi se defende, repassando para os governos posteriores as responsabilidades sobre, por exemplo, o funcionamento parcial, até hoje, da unidade de Alegria:

— Assinei o memorando de início das obras para o consórcio vencedor implantar todos os coletores e redes de Alegria. Não sei por que não executaram. Ainda hoje, o Canal do Mangue é uma estação de tratamento a céu aberto.

O presidente da Cedae, Wagner Victer, prefere focar na modernização da gestão, segundo ele, realizada a partir de 2007:

— Quando eu entrei na Cedae, era comum a gente ver empreiteira gerenciando empreiteira. Hoje é a Cedae que gerencia as obras, não terceiriza o gerenciamento de nada. A crítica pela maneira com que o PDBG foi conduzido é pertinente. Concretamente, os resultados hoje são significativos. Os sistemas estavam parados e retomamos.

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