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SP: Água no Sistema Alto Tietê pode acabar em 30 dias, diz engenheiro

A água do Sistema Produtor Alto Tietê (Spat) pode acabar em 30 dias. A previsão é do engenheiro aposentado da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), professor universitário e membro do Comitê de Bacias do Alto Tietê, José Roberto Kachel dos Santos. “É preciso ficar claro que o que vai acabar é o volume reservado nas represas e barragens. Mas, a água não acaba totalmente. No entanto, diante desse cenário o abastecimento deve ficar prejudicado”, explica Kachel, que trabalhou por 30 anos na Sabesp.
Bombas são usadas em represa de Biritiba Mirim (Foto: Reprodução/TV Diário)
Nível do reservatório Biritiba Mirim recua cada vez
mais. (Foto: Reprodução/TV Diário)

O engenheiro fez a projeção baseado em dados divulgados pela Sabesp do volume das represas do Alto Tietê e também da pluviometria pelo Sistema de Alerta e Inundações de São Paulo (Saisp).
Sobre a situação do sistema, a Sabesp informou que desde setembro, “com a implantação de sistemade tratamento por membranas de ultrafiltração, o sistema Rio Grande passou a produzir 500 l/s a mais de água para atender área abastecida pelo sistema Rio Claro. Dessa forma, o volume excedente passou a ser aproveitado para as regiões de atuação do Alto Tietê.” Segundo a companhia, em novembro uma obra permitiu o acréscimo de 1,8 ponto percentual ao volume útil do reservatório de Biritiba-Mirim, que corresponde a nove bilhões de litros de água. “Com a chegada do período de chuvas mais intensas, a expectativa é que o Sistema Alto Tietê volte a subir, assim como ocorreu no dia 2 de novembro quando mais de 4 bilhões de litros foram acrescidos aos reservatórios”, acrescentou.
Biritiba Miri

De acordo com Kachel, o volume acumulado na Represa de Biritiba Mirim é de 0%. “O volume morto de Biritiba está sendo transferido para a Represa de Jundiaí por bombeamento desde 10 de outubro. E ele deve durar mais uns 15 dias.” O engenheiro define volume morto como aquele que está abaixo de qualquer dispositivo para retirada de água da barragem e, por isso, há a utilização de bombas. Imagens feitas por um drone no local (veja acima) mostram uma estrutura que Kachel afirma ser as bombas para a retirada do volume morto.
Engenheiro Kachel afirma que Sabesp já retira volume morto em Biritiba Mirim (Foto: Reprodução/TV Diário)

No reservatório de Biritiba Mirim são visíveis os estragos provocados pela estiagem. A margem já secou e aos poucos o nível recua cada vez mais para o meio do reservatório. “Esse volume útil de 5 milhões de metros cúbicos acabou em 10 de outubro. Continuaram bombeando e continuam bombeando até hoje”, afirma Kachel. Ele destaca que desde 10 de outubro já foram retirados cerca de 11,5 milhões de metros cúbicos de volume morto da represa de Biritiba.

A Sabesp nega que esteja utilizando o volume morto do reservatório de Biritiba Mirim. O G1 enviou as fotos feitas por drones questionando para que serve a estrutura, mas não recebeu resposta. A companhia afirmou que “a água utilizada na Biritiba Mirim é do volume útil do sistema.” Ainda de acordo com a informação passada pela Sabesp nesta quarta, a captação de água no Sistema Alto Tietê é, em média, de 12 metros cúbicos por segundo.

Além da de Biritiba Mirim, o Sistema Alto Tietê conta com outras quatro represas. Pelos cálculos de Kachel, a Represa de Ponte Nova tem 1,8% do seu volume acumulado, a de Jundiaí 1,6%, Taiaçupeba com 10,8% e Paraitinga com 22,4%. Assim, o volume operacional atual é de 3,7% e não 4,4% como foi divulgado pela Sabesp.
Ponte Nova

A Sabesp divulgou que avalia a utilização de um volume de aproximadamente 40 bilhões de litros do reservatório de Ponte Nova. Esse volume representa um acréscimo de 7,5% no volume do Sistema Alto Tietê. A Sabesp, porém, não confirma se este é o volume morto, alegando que para isso precisa saber de que forma a capacitação vai ser feita.
Água pode ser vista ao longe em parte de represa de Salesópolis (Foto: Jenifer Carpani/G1)

O G1 esteve na represa, na cidade de Salesópolis, nesta quarta-feira. Em uma passagem conhecida como Aterrado, que corta o reservatório, de um lado ainda há água, mas em nível bem mais baixo que o comum. O outro está seco. Segundo a Prefeitura, isso ocorre porque o lado que é abastecido pela chuva secou. Já o outro recebe água de nascentes.
Quem conhecia as represas do Alto Tietê com águas abundantes fica surpreso com o novo cenário. O engenheiro José Aparecido Ferreira, de 54 anos, aproveitou as férias para percorrer as represas da região. “Essa é a segunda vez que vejo a represa assim. A primeira vez foi há uns cinco anos atrás, quando também estava seco desse jeito. Depois encheu de novo, mas antigamente a água até cobria esse aterrado que estamos pisando. Estou muito impressionado, eu pesquei muito nessa represa e agora está tudo seco.” Ele afirma que na terça-feira (9) esteve em Nazaré Paulista e a represa da cidade está seca também.

O Sistema Alto Tietê abastece 4,5 milhões de habitantes da Grande São Paulo e parte da capital. Em Salesópolis, quem chegava à cidade via logo na entrada a Represa de Paraitinga. Atualmente, água só bem ao fundo. Em Mogi das Cruzes, a Barragem do Rio Jundiaí revela estradas que ficaram submersas por décadas. O pier dá ideia de até onde a água chegava.
Em novembro, na região, choveu 21 milímetros a menos que a média histórica. Para dezembro, a média histórica é de 192 milímetros. Até esta quarta 20,2 milímetros caíram de fato. Para Kachel se não chover bastante o cenário deve ficar mais complicado. “Perto do Natal teríamos um colapso total do sistema em termos de volume armazenado.” Ele destaca ainda que há três anos o índice de chuvas na região está abaixo da média e que em 2014 esses números foram trágicos. “O que mantém a perenidade dos rios é a água da chuva armazenada no subsolo. Essa água acumulada é distribuída aos poucos para milhares de nascentes em toda a extensão da bacia. O que a bacia inteira consegue produzir é a somatória de milhares de nascentes. E agora com a seca, a pouca chuva que temos não chega ao subsolo. É preciso recuperar o subsolo, chovendo normalmente e sem tirar nada para recuperar o lençol e tudo voltar ao normal. Isso deve levar no mínimo uns três anos”, avalia.

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