Em março, os dois leilões previstos, da Saneago e da Cagepa, não se concretizaram.
O mercado de saneamento básico enfrenta um período de incerteza em relação à agenda de leilões de concessões e PPPs (Parcerias Público-Privadas), ao menos no curto prazo. Segundo especialistas, os motivos são o calendário eleitoral, problemas específicos dos projetos e a forte expectativa do setor em relação à privatização da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais ), que será feita via oferta de ações na Bolsa.
Em março, os dois leilões inicialmente previstos acabaram não se concretizando. A licitação de três PPPs da Saneago (estatal de Goiás) foi cancelada por falta de propostas – um grupo chegou a apresentar oferta por um dos três lotes, mas foi inabilitado. Já a concorrência da PPP da Cagepa (companhia estadual da Paraíba) foi remarcado para 15 de maio.
Outros projetos regionais, de grande porte, ainda estão previstos para 2026, como a concessão de Rondônia e as PPPs em estudo pelo Estado de São Paulo, com as cidades não atendidas pela Sabesp, que o governo paulista planeja realizar em dezembro. Por enquanto nenhum deles tem data marcada.
No caso de Rondônia, recentemente houve um sinal positivo com a aprovação da concessão pelo Tribunal de Contas do Estado, com algumas observações. “Então a gente deverá fazer alguns ajustes e já consegue lançar o edital”, afirmou Luciene Machado, superintendente da área de Soluções para Cidades do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Outro fator favorável é a permanência do atual governador até o fim do mandato.
Machado afirma que Cagepa e Saneago também deverão sair ainda em 2026. No caso do projeto de Goiás, já estão sendo estudadas as reformulações necessárias para atrair interessados. “Já fizemos uma escuta com todos os ‘players’. Foram oito reuniões em dois dias. A ideia não é revolucionar, fazer um projeto todo novo, mas de fato a gente precisa tratar os pontos que foram críticos”, disse ela.
Já no caso de Cagepa, a superintendente afirmou que como o leilão estava muito próximo ao da Saneago e de outros projetos do setor, os grupos pediram o adiamento. “A gente já sabia que era muito desafiador o prazo [inicial, de março].”
Na visão de Machado, assim como de outros analistas, a perspectiva de privatização da Copasa no primeiro semestre também gera uma concorrência pelos esforços de alguns investidores de maior porte interessados na estatal mineira. “Vai ser o negócio do ano. E para entrar e fazer uma proposta, gasta-se muito dinheiro. (…) São poucos atores que podem de verdade [entrar em Copasa ], mas eles estão muito focados nisso.”
“Os interessados vão ter que entrar consolidando, está chegando nessa fase”. — Ewerton Henriques
Ao mesmo tempo, especialistas destacam que há atores mais recentes no setor de água e esgoto que seguem interessados nos leilões de concessões.
“Houve a entrada de novos grupos, como a Acciona, e há outros se movimentando, alguns estrangeiros, como chineses, ou empresas se capitalizando”, disse Ewerton Henriques, da SH Consultoria.
Para André Gilberto, sócio do CGM Advogados, há apetite do mercado, mas faltam projetos atrativos.
“Cada caso é um caso, mas os projetos recentes tiveram problemas que afetaram o interesse de investidores”, disse.
Parte dos analistas também apontam que o ciclo de projetos atrativos em saneamento começa a se esgotar, o que leva a uma maior dificuldade na modelagem. “Estamos próximos do fim do ‘boom’ de saneamento, não tem muitos mais ativos tão interessantes”, afirmou Gilberto.
“Os megablocos estão acabando. Ainda há projetos [grandes atrativos], como Porto Alegre, os blocos regionais de São Paulo, mas os contratos de grande vulto foram embora. A janela do saneamento está se fechando, tem uma data-limite para o investimento, por conta da obrigação de universalizar o serviço. Depois disso, os interessados vão ter que entrar consolidando, está chegando nessa fase”, disse Henriques.
Já Rafael Vanzella, sócio do Machado Meyer especialista em infraestrutura, avalia que ainda há um estoque de projetos que deverá gerar interesse.
“Ainda tem ativos não necessariamente piores em relação aos que já foram licitados. Essa avaliação vai depender do perfil do investidor. Há oportunidade em diferentes modelos: privatização, concessão plena, PPP, e tem também leilões de municípios menores. Estou otimista, não sei se com relação a este momento, mas que o setor continuará sendo por algum tempo um dos mais vibrantes”, disse ele.
“Só no primeiro semestre tem expectativa de Saneago, Cagepa, Copasa, embora em outro modelo, e tem perspectiva de publicação de Rondônia. Isso em um curtíssimo prazo. Para um ano é muita coisa. E ainda tem outras coisas sendo modeladas”, afirmou.
Henriques pondera, porém, que o calendário político deverá afetar os projetos de maior porte, que são conduzidos pelos Estados.
“É um problema não só no saneamento, leilões de outros setores também estão impactados, ou sendo acelerados ou jogados para o ano que vem.” Fontes apontam que parte das iniciativas que vinham sendo estruturadas já foram praticamente paralisadas por conta das movimentações eleitorais.
Fonte: Valor