Seis anos após a sanção do Marco Legal do Saneamento Básico, apenas 11 das 100 maiores cidades do país alcançaram a universalização dos serviços de água e esgoto, evidenciando um cenário ainda desafiador e marcado por profundas desigualdades na infraestrutura básica.
O que aconteceu
Levantamento do Ranking do Saneamento 2026, com dados de 2024, mostra que essas cidades garantem regularidade no abastecimento de água, além de coleta e tratamento de esgoto. O estudo é do Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados.
Ao todo, 89 cidades têm até o ano de 2033 para regularizar a situação do saneamento básico regulado pelo marco legal. Contudo, o ranking apresenta uma realidade que dificulta o cumprimento dos requisitos, como o baixo investimento na infraestrutura para água
O Marco do Saneamento Básico define como diretriz principal a meta de universalização dos serviços de saneamento no Brasil. Para que os serviços sejam considerados universalizados, o município deve contar com 99% da população com acesso a água potável e 90% com acesso à coleta de esgoto. Entretanto, a maior parte das cidades do Brasil ainda têm ao menos um dos quesitos a cumprir.
Se levar em consideração o índice de perdas de água, apenas quatro municípios gabaritam no ranking. Além de estarem com os serviços de saneamento universalizados, Franca, São José do Rio Preto, Campinas e Santos, os quatro primeiros da lista, conseguem manter as perdas de água abaixo dos 25% — enquanto a média nacional de perda de água tratada é de 41,5%
Das 100 maiores cidades do país, 51 investem menos de R$ 100 por habitante em saneamento básico. O nível de investimento é considerado muito abaixo do necessário. O plano nacional estipula que sejam investidos, pelo menos R$ 225 anuais por habitante para a universalização.
Entre 2020 e 2024, os vinte piores municípios investiram, em média, 77,58 em saneamento por habitante. O valor é 65% menor do que o patamar referência do Plansab.
Apenas 17 municípios dos 100 analisados investem mais de R$ 200 por habitante em saneamento. Apenas 10 cumprem com rigor o que foi definido com o marco legal.
Mais de 30 milhões de pessoas no Brasil sobrevivem sem acesso a água potável. Além disso, quase 90 milhões não têm coleta de esgoto.
Tendo 2033 como data limite, sem aumento nos investimentos, os municípios com pior desempenho dificilmente vão alcançar a universalização dentro do prazo. O Trata Brasil aponta que com baixo volume de recursos, outros setores importantes da sociedade, como saúde e educação, podem ser impactados negativamente.
“Apesar dos avanços registrados em diversos municípios no acesso à água potável e à coleta de esgoto, o tratamento do esgoto ainda é o aspecto mais distante da universalização no país e segue como o principal desafio a ser enfrentado. Em um ano eleitoral, é fundamental que o saneamento ganhe centralidade no debate público e integre de forma prioritária as agendas dos futuros governantes em todo o país. ” Luana Pretto, presidente executiva do Trata Brasil
Desigualdades regionais
Norte e Nordeste seguem em maioria entre as 20 piores cidades do Brasil em saneamento básico. O Trata Brasil aponta que há uma estagnação nos municípios das regiões, que seguem investindo pouco ou nada nessa infraestrutura.
Das 20 piores cidades no quesito, 14 estão no Norte ou Nordeste. Dentre elas, estão sete capitais das regiões: Maceió, Manaus, São Luis, Belém, Rio Branco, Macapá e Porto Velho.
Santarém, Porto Velho e Rio Branco são as piores cidades em saneamento básico do Brasil, segundo o instituto. A cidade do interior paraense com mais de 357 mil habitantes tem apenas 3,2% do esgoto coletado e 9% tratado.
Duas capitais do Norte com sérios problemas de saneamento básico. Porto Velho tem 30,7% de atendimento de água tratada. Rio Branco está na posição 98 do ranking e investe apenas R$ 8,99 por habitante em saneamento.
Entre as 20 piores cidades estão, ainda, quatro municípios do Rio de Janeiro. Além disso, uma fica na região Centro Oeste, e outra no Sul.
Os 10 piores municípios em saneamento básico do Brasil:
- Santarém (PA) – 100ª posição;
- Porto Velho (RO) – 99ª posição;
- Rio Branco (AC) – 98ª posição;
- Várzea Grande (MT) – 97ª posição;
- Parauapebas (PA) – 96ª posição;
- Belford Roxo (RJ) – 95ª posição;
- Belém (PA) – 94ª posição;
- Macapá (AP) – 93ª posição;
- Jaboatão dos Guararapes (PE) – 92ª posição;
- Ananindeua (PA) – 91ª posição.
Seis dos 10 melhores municípios em saneamento estão cidades de São Paulo — todos contam com o serviço universalizado. O ranking é liderado por Franca, que conta com 99,4% da população com água potável, 98,9% de coleta de esgoto e 96% de tratamento.
Os 10 melhores municípios em saneamento básico:
- Franca;
- São José do Rio Preto;
- Campinas;
- Santos;
- Limeira;
- Goiânia;
- Niterói;
- Aparecida de Goiânia;
- Foz do Iguaçu;
- Taubaté.
Os quatro primeiros do ranking atingiram nota máxima nos critérios analisados. Além disso, outra cidade de São Paulo teve o maior investimento per capita em saneamento no Brasil: Praia Grande. O município investiu quase R$ 573 por pessoa — quase três vezes mais que a meta do Plansab.
O Ranking do Saneamento 2026 lista o desempenho dos 100 municípios mais populosos do Brasil, utilizando como base técnica os dados oficiais do SINISA (ano-base 2024) publicados pelo Ministério das Cidades. Para definir a posição de cada cidade, o instituto avalia três dimensões fundamentais: o nível de atendimento (cobertura atual de água e esgoto), a melhoria do atendimento (o quanto o serviço expandiu) e, além disso, o nível de eficiência, que pune o desperdício ao exigir índices de perdas na distribuição inferiores a 25%.
Por fim, o cálculo final leva em conta o desempenho em água potável, coleta e tratamento de esgoto, permitindo que as cidades alcancem uma pontuação máxima de 300 pontos quando atingem a excelência em todos os critérios estabelecidos pelo Marco Legal
Consequências da falta de saneamento
A falta de saneamento traz consequências diretas e graves para a saúde pública. A falta de água e coleta de esgoto auxilia no surgimento de doenças e compromete o bem-estar afetando milhões de pessoas que ainda não possuem acesso a serviços essenciais
A universalização do saneamento básico no Brasil reduziria em 86.760 o número de internações por DRSAI (Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado). A redução traria uma economia de, aproximadamente, R$ 49,9 milhões aos cofres públicos, segundo o Trata Brasil. O custo por internação é de R$ 506,32.
Apenas em 2023, foram 11.544 mortes por DRSAI. Em 2008, início da série histórica, foram 11.956 óbitos.
Por fim, a presença de saneamento básico reduziria em 69% a taxa de internações. Com adequação do saneamento básico em todos os lares brasileiros, em 36 meses a taxa de internações por essas doenças cairiam drasticamente.
Fonte: Uol
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